Quem desafiou o frio intenso que cortou a noite de ontem, dia 4, para testemunhar a apresentação de Marcelo Nova no Corumbá Fest, não presenciou apenas um show de rock; testemunhou uma aula de sobrevivência, longevidade e atitude artística. Em uma noite onde os termômetros despencaram, o veterano do rock nacional provou que o tempo e o clima são variáveis irrelevantes para quem carrega o DNA do front man definitivo.
O espetáculo foi uma demonstração clara da capacidade única de Marcelo em magnetizar múltiplas gerações. Na plateia, veteranos que acompanharam a explosão do Camisa de Vênus nos anos 1980 dividiam o mesmo espaço — e o mesmo entusiasmo — com jovens que mal eram nascidos quando o clássico álbum A Panela do Diabo foi lançado. Todos hipnotizados por uma performance arrebatadora.
No palco, a sinergia familiar roubou a cena. Ao lado de seu filho, o virtuoso guitarrista Drake Nova, Marcelo mostrou uma forma física e vocal invejável. A presença de Drake injeta uma octanagem extra ao som, criando uma parede de guitarras pesadas que serviu de moldura perfeita para a crueza e o cinismo poético das letras do pai.
Conhecido por sua acidez incorruptível, Marcelo não hesitou em colocar o público em seu devido lugar quando os pedidos insistentes por "Simca Chambord" ameaçaram ditar o ritmo da apresentação. Com o carisma debochado que lhe é peculiar, disparou:
"Vocês estão pensando que eu sou um jukebox?"
A provocação, em vez de afastar, aproximou. Era o mestre de cerimônias lembrando que um show de rock autêntico é um ritual vivo, não um algoritmo de reprodução mecânica.
Havia muito tempo que o cenário regional não sintonizava um espetáculo de rock tão ímpar, visceral e desprovido de clichês. Marcelo Nova não faz concessões ao politicamente correto ou às conveniências do mercado; ele entrega o que o rock sempre prometeu e raramente cumpre hoje em dia: perigo, suor e catarse. O público que resistiu ao inverno goiano voltou para casa com a alma aquecida pelo fogo do mais puro e honesto rock and roll.